Sexta-feira

vidinhas

Arnaldo era um sujeito comum, altura mediana, com seu um metro e setenta e cinco sempre se achou na média. Só se achava muito magro, franzino, achava-se um fracote e por isso mesmo resolveu entrar para uma academia. Somava a essa altura dezenove anos, aparentava menos, iniciou a musculação achando que viria a se tornar forte e mais confiante.
Após alguns meses já tinha resultados, aumentou o peso, as medidas, e realmente tornou-se mais confiante. Começou a paquerar as colegas e assim conheceu Maria das Dores, uma morena muito bonita, voluptuosa, seios fartos, bumbum proeminente, atitude de passista de escola de samba.
Arnaldo a conheceu em uma aula da academia e desde que a viu não conseguia pensar em outra coisa, seguia ela nos aparelhos e tentava puxar conversa, mas Maria das Dores era muito popular, todos na academia conheciam e vários homens a cortejavam.
Arnaldo ainda mantinha seu jeito tímido e mesmo sentindo-se mais à vontade com seu corpo ainda se sentia muito inferior e como no jargão popular “era muita areia...” resignou-se então a vê-la sair com os garotões sarados da academia, mas não deixava de tê-la sempre na mente.
Um dia muito amargurado entrou no bar em frente e começou a beber, não acostumado logo se embriagou.
Nesse fatídico dia Maria das Dores chegou à academia mais cedo e sabe-se lá por que olhou para o boteco pé sujo em frente. Logo ela reconheceu o Arnaldo aquele rapaz tímido que sempre malhava no aparelho depois dela, e que a seguia como um cachorrinho a distância curta.
Ficou curiosa, pois ele parecia tão amargurado, atravessou a rua e foi ter com ele. Embriagado Arnaldo enxergava mal e não reconheceu Maria até que ela estivesse bem ao seu lado. Mal conseguiu cumprimentá-la, desandou a chorar, não tinha conexão em suas palavras, mas desabafou todo o sentimento de seu coração. Disse a ela tudo que sentia, pensava e ansiava não em uma ordem racional, mas disse e desatou meses de paixão recolhida, liberada agora pelo momento ébrio.
Maria não sabia o que dizer, surpresa pela declaração e pelo constrangimento, esse por que Arnaldo não foi discreto dava pra escutá-lo na outra esquina qual era a altura da sua voz. Pediu licença e saiu nada mais disse, nem foi para academia, pegou seu coletivo e foi para casa.
Arnaldo pagou a conta e saiu, sentia-se ainda pior, foi embora a pé.
No outro dia acordou, pensou que tudo fora um grande sonho ou um delírio, mas a dor de cabeça era muito real sabia que tudo havia acontecido. Sentindo-se humilhado, foi até a academia e cancelou sua inscrição, nem pediu reembolso, apenas saiu.
Maria acordou tarde, saiu com o namorado ontem, brigaram, já vinham tendo várias discussões por conta da academia, mas Maria se recusava a sair de lá dizia que gostava do ambiente. Ontem terminaram o namoro, foi a gota d’água o escândalo na porta com o tal Arnaldo.
Maria resolveu faltar à academia, mas ligou para ter notícias, ficou sabendo da saída do Arnaldo. Pensou bem refletiu, tomou um bom gole de água, mandou tudo às favas e foi fazer uma caminhada no parque.

Vidinha 2

Arnaldo acorda atrasado, programou o celular para as seis da manhã e já são seis e quarenta, sabe que vai enfrentar filas e congestionamento por isso - porcaria de celular.
Levanta-se correndo, pensa em fazer um café, olha pra pia e o coador está sujo com um cheiro estranho, desiste não tem tempo, vai para o ponto de ônibus.
Já são sete da manhã e seu compromisso é ás oito horas e nada do coletivo, essa expressão sempre foi real, mas hoje com mais de quarenta pessoas na parada, espremer-se para subir não é tarefa fácil. Sete e quinze, lá vem o ônibus(lotado) consegue entrar empurrando um senhora de lado, a vizinha dona Judith, a coitada cai na lama e fica para trás. Arnaldo nada percebe na sua afobação e entra arfando heroicamente alegre por ter conseguido ficar de pé.
Oito horas, chega ao centro, começa a correr, a entrevista de emprego é agora não pode perder mais essa chance. Oito e vinte chega ao local, não consegue entrar, foi escluído da seleção por se atrasar.
Irritado, deprimido, triste sai amaldiçoando a porcaria do celular. Nesse momento ele toca, ele atende:
-Alô?
do outro lado um antigo amigo que sabe da condição desfavorável de Arnaldo:
- Arnaldo? Aqui é o Paulo.
- Paulo? quanto tempo?
Paulo - Meses, eu sei, sabe estou com um lance aqui que talves te interesse. Passa aqui na firma hoje, ok?
Arnaldo - Passo, pode ser agora?
Paulo - claro, então até mais.
Arnaldo - Até.
Arnaldo então atravessa o centro a pé, no sol escaldante das nove horas da manhã de terno. consegue chegar ao escritório da firma do Paulo as nove e trinta.
Paulo o recebe e propoe uma representação comercial dos filtros "EUROPA", Arnaldo fica satisfeito com a proposta, aceita de imediato e pouco mais de uma hora depois já saia dali com um filtro, um pasta e uma dívida de Trezentos reais por estar levando o filtro.
Resolve voltar para a periferia onde conhece todo mundo e pode vender o tal filtro mais fácil.
Já são Doze e trinta e está morrendo de fome, pensa em ligar pra casa ver se tem comida, mas o celular acabou a bateria. Se convence que comerá mais tarde agora que as pessoas estão almoçando em casa é mais fácil. Chega ao seu bairro ás treze horas, começa a bater de porta em porta, ninguém o recebe bem. Recebe mais de cinquenta nãos até as dezessete horas quando toma uma água na torneira do buteco. Pensa agora em desistir, mas agora já tem a dívida do filtro e tem que vender de qualquer jeito. Vai ao setor vizinho e recebe mais uns sessenta nãos.
Irritado já são sete horas, volta pra casa, está com fome cansado e com sede.
Chega em casa encontra tudo bagunçado, telefone fora do gancho e cadê a Maria?
O filtro de café continua sujo, olha pela janela e vê a Dona Judith a vizinha gente boa que mora ao lado, pensa que resolveu seus problemas e vai lá tentar vender o filtro "EUROPA".
Dona Judith o recebe muito bem, escuta todas as suas explicações sobre o filtro e depois de quase trinta minutos chama o cachorro e solta-o sobre Arnaldo, enquanto ele se defende ela despeja sobre ele as consequências dele a ter jogado na lama pela manhã, xinga-o de todos os palavrões que conhece e por fim expulsa-o de sua casa.
Ele volta pra casa o cachorro mordeu a porcaria do celular.
Maria deve ter chegado, pois a porta está fechada, abre-a e encontra com Maria.

Terça-feira

Vidinha

Maria chegou às nove, encontrou a casa vazia, esperava que Arnaldo tivesse feito o café, mas ele não estava em casa. Ela desempacotou as compras e colocou água para ferver pensando onde estaria o Arnaldo.
Passou o café no coador sujo de ontem, estava com preguiça de lavar, sentou-se a mesa e aproveitou o aroma forte. Depois de tomar o café resolveu sair em busca do Arnaldo.
Já são onze horas e nada, pensou: - Vou pra casa fazer o almoço, logo ele chega e depois fico sabendo onde estava.
Faz o almoço: uma porção de arroz com feijão e dois ovos fritos. Nada muito gastronômico, mas rápido ela pensa.
Duas da tarde, nada do Arnaldo, ela se enfurece e come o ovo frio dele e joga todo resto no lixo.
- Porcaria de Celular fora de área!
Quatro da tarde, ela se joga na cama aos prantos, imagina que ele a deixou, que morreu, está internado em algum hospital, incomunicável em algum canto, sequestrado!!!
Seis da tarde, liga desesperada para sua Mãe, mas ela também não atende o telefone.
Resolve sair, procurá-lo, ir a polícia, aos hospitais, necrotério, não sabe mais o que fazer.
- Oito da noite, volta para casa chorando alto, chamando a atenção dos vizinhos, da esquina avista a porta aberta e luz em casa. - Arnaldo!
Chega e não encontra ninguém, desespero total, pega o telefone e liga para policia, que a põe na espera por vinte minutos. Ela desiste.
Barulho na porta, a porta se abre e ele entra, na mão um celular quebrado na outra a pasta de vendedor de purificadores de água "EUROPA" a expressão de cansaço profundo.
Não responde a perguntas, vai na geladeira pega a garrafa de água, toma metade de uma vez e diz: - Que dia horrível! Cadê o jantar?
Maria confusa pela felicidade de revê-lo e pela raiva do desparecimento nada diz aponta para o lixo e diz - Foi mal!